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Lisboa é uma cidade cuja fundação pode ser traçada pelo menos ao século VII a.C., I Idade do Ferro, uma altura caracterizada pela expansão comercial e por alguma colonização fenícia das costas do mar mediterrâneo. A Fenícia era composta por várias cidades-estado na zona do atual Líbano, do Sul da Síria e do Norte de Israel. Os fenícios dedicaram-se à exploração de rotas comerciais através do mediterrâneo. Cartago, na atual Tunísia, foi a mais importante de todas estas cidades, mas os fenícios também fundariam colónias na Península Ibérica como Málaka (Málaga), Gadir (Cádis) e a cidade de Olisipo, primeiro nome comprovado da cidade de Lisboa.Com a queda da cidade de Tiro (principal cidade fenícia) e ao entrar na esfera de influência cartaginesa, Olisipo torna-se um alvo para uma nova e rival potência emergente, Roma.
Em 138 a.C. Roma envia o Cônsul Decimus Iunius Brutus com um exército para o atual território português. Ao que tudo indica Olisipo não é ocupada pela força, tornando-se uma cidade aliada.
Com o tempo, a Olisipo do período republicano torna-se na Felicitas Iulia Olisipo do período imperial, um dos principais portos da península ibérica e é construída a primeira muralha conhecida, embora sem cariz militar e apenas para demarcação do espaço da cidade.
Com o fim da centralização do poder de Roma, a cidade entra num período de instabilidade política e social acabando por ser ocupada em 468 ou 469 por Suevos, mas acabaria por passar de mãos novamente, ainda no decorrer de 469, para os rivais visigodos. A cidade viveria um período de declínio durante a ocupação visigoda até à chegada dos exércitos muçulmanos do Califado Omíada.
Tendo chegado à Península Ibérica em 711 as forças muçulmanas lideradas por Tariq ibn Ziyad derrotariam facilmente as tropas visigodas na Batalha de Guadalete. Esta vitória iniciaria um rápido processo de ocupação do território, pondo um fim ao Reino Visigodo. Com a sua ocupação em 714 a Olisipona visigoda tornar-se-ia na Al-Ushbuna islâmica.
Nos séculos seguintes, a cidade, sob o domínio muçulmano, sofreria um processo de crescimento e desenvolvimento, tornando-se numa das principais cidades da região. Segundo as fontes a antiga muralha romana seria renovada em 985 por al-Mansur, para proteger a cidade, sobretudo de raides viquingues. Sim, ouviram bem, os viquingues chegaram até aqui!
Seria neste período que a cidade adotaria a organização de uma metrópole típica do Al-Andaluz, dividida entre Alcáçova (Kasbah) espaço fortificado onde nos encontramos e local de residência das elites; e Medina, a cidade propriamente dita.
A partir do século XI, o Norte cristão, concentrado no reino das Astúrias, avança sobre o Sul muçulmano. É neste contexto que surge a figura de Afonso Henriques, representado na estátua atrás de si.
Dom Afonso Henriques era filho do Conde Dom Henrique de Borgonha e de Dona Teresa, filha ilegítima de Afonso VI, Rei de Leão e Castela. O pai de Dom Afonso Henriques veio para a Península Ibérica combater na “Reconquista Peninsular”, um processo de tentativa de recuperação de territórios aos muçulmanos pelos cristãos. Após o casamento com Dona Teresa, é atribuído a Dom Henrique o título de Conde de Portucale. O Condado Portucalense era um território que se localizava a noroeste da Península Ibérica, correspondendo aproximadamente ao Norte de Portugal, acima da cidade de Coimbra. É neste contexto que nasceria Dom Afonso Henriques, embora não se saiba ao certo nem a data nem o local de nascimento, mas estima-se que tenha sido entre 1107 e 1109 e, muito provavelmente, no Condado Portucalense.
Com a morte de Dom Henrique, Dona Teresa assume o governo do Condado até à Batalha de São Mamede em 1128 onde é derrotada pelo seu filho e alguns nobres portucalenses.
Como data da independência de Portugal, os historiadores apontam 3 possíveis datas:
1139 – Batalha de Ourique, na qual, segundo a lenda, Dom Afonso Henriques derrota 5 reis mouros, sendo que é mais provável ter sido uma escaramuça entre pequenos grupos de cavaleiros, e da qual emerge vitorioso. Após a Batalha é aclamado pelos soldados como Rex (a palavra latina para Rei), passando a assinar documentação com esse título. Claro que para um castelhano tal assinatura não valia absolutamente nada.
1143 – A 5 de outubro deste ano, reuniram-se em Zamora, Afonso VII, rei de Leão e o seu primo Afonso Henriques. Daqui resultou um acordo que declarava a paz e punha fim aos conflitos entre os dois territórios. Afonso VII reconheceu e concedeu o título de Rex Portucalensis a Afonso Henriques. Claro que para um Franco tal também não significava nada.
1179 – Bula Manifestis Probatum, assinada a 23 de maio pelo Papa Alexandre III, reconhecendo Afonso Henriques como Rei e Portugal como um reino independente cristão. A partir deste reconhecimento a independência de Portugal não poderia mais ser posta em causa por castelhano ou franco algum.
À época, Coimbra era a cidade mais importante do reino e foi o local onde os ataques foram planeados e onde se reuniram os exércitos. De uma destas ofensivas resultariam as conquistas aos muçulmanos de Santarém e Lisboa.
Só mais tarde, em 1255, no reinado de Afonso III, Lisboa torna-se na cabeça do Reino e o monarca passa a permanecer no Paço da Alcáçova, nossa próxima paragem.
Após a conquista do Algarve em 1249, Afonso III apercebe-se que necessita de uma nova residência para governar todo o reino. Lisboa surge como primeira escolha, por vários motivos: era a maior cidade do território e uma das maiores da península ibérica; em termos geográficos estava aproximadamente no centro, era uma cidade próspera e tinha a sul o imponente estuário do rio Tejo, cujo seu porto era fundamental tanto a nível mercantil como militar.
O monarca necessitava de uma residência oficial e permanente, o Palácio da Alcáçova seria o espaço escolhido. A documentação indica-nos que várias obras foram realizadas neste período. Perguntam então agora onde está esse palácio? Precisamente onde se encontram. Arrebatador, não é? Na realidade o que estão a ver são apenas as ruínas deste antigo palácio, destruído, como boa parte da cidade de Lisboa, por um gigantesco terramoto na manhã de 1 de novembro de 1755.
Acredita-se ainda que neste mesmo espaço, durante o período islâmico, estaria a residência do governador da cidade, o Alcaide, até à conquista de Lisboa em 1147. Bem como, após a conquista, os governadores cristãos entre esta data e o estabelecimento de Lisboa como cabeça do reino em 1255. Só após a construção do Paço da Alcáçova passa a existir uma residência oficial do rei. Este paço foi a residência oficial dos monarcas portugueses até finais do século XVI. No entanto, em 1505, D. Manuel I foi habitar o recém-construído Paço da Ribeira. Ainda assim, o Paço da Alcáçova manteve o seu estatuto de residência régia, recebendo várias obras de melhoria ao longo do século XVI.
Em 1578, a trágica morte do rei D. Sebastião em campo de batalha deixou o trono de Portugal vazio. Foi criada uma crise de sucessão e abriu-se caminho para que o rei Filipe II de Espanha reivindicasse a coroa portuguesa. Portugal e Espanha ficaram sob a regência deste monarca, momento histórico que se denominou União Ibérica. Nesse tempo, entre 1580 e 1640, fizeram-se obras no espaço do Castelo de São Jorge, incluindo no Paço Real da Alcáçova, que acabou por ser transformado em prisão e em quartel, funções que manteve até ao século XX.
A partir dos anos 30 desse século, o Estado Novo, o regime político de cariz ditatorial, iniciou obras de reintegração e restauro em diversos espaços históricos portugueses, pela mão da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais ou mais conhecida por DGEMN. Um dos monumentos intervencionados foi o Castelo de São Jorge, considerando que a fortificação medieval se encontrava escondida entre os muros dos quarteis aí construídos. Em 1938, a DGEMN iniciou uma série de intervenções, que incluíram a demolição de construções recentes e a expropriação de terrenos, de forma a redescobrir o castelo medieval de Lisboa que estava oculto. Com estas obras, restituíram a sua fisionomia medieval e devolveram-no à paisagem de Lisboa, apagando os anteriores vestígios das casernas do aquartelamento.
Existem documentos que referem a existência de uma Capela dedicada a São Miguel, no Paço Real da Alcáçova desde 1299, no reinado de Dom Dinis. Este monarca foi responsável pela permanência de um capelão perpétuo com a obrigação de celebrar missa diariamente, mesmo quando os reis estivessem ausentes. Nesta Capela régia, em 1502, por ocasião do batizado do futuro D. João III, foi encenada a primeira peça de teatro do dramaturgo Gil Vicente chamada Auto da Visitação ou Monólogo do Vaqueiro. Hoje permanecem apenas alguns vestígios das fundações da abside e da nave do templo. Mas, no século XVI, segundo as descrições da época, seria um espaço “de bom tamanho” e com decoração sumptuosa em que se incluía um conjunto de tapeçarias que decoravam as paredes do edifício. Numa delas estaria representado Dom Manuel I em concílio. Existia ainda, uma pintura de São Miguel Arcanjo a expulsar Lucífer descrita como “obra de mestre” pelo cardeal Giovanni Battista Venturini, secretário do representante do Papa, que visitou o Palácio, em 1571.
A grandiosidade dos interiores do Palácio já não vai poder ver, mas confie nas palavras do cardeal Venturini e imagine um grande edifício de pelo menos dois andares, com diversas camaras, antecâmaras, salas, escadas e varandas. Por fora, este paço feito de pedra, não tinha “forma alguma de arquitetura” aos olhos deste cardeal, e por dentro era “mais cómodo do que vistoso”. Ainda assim, havia tapeçarias de Flandres a decorar os interiores, bem como tecidos bordados a ouro, mobiliário exótico, peças de ouro e prata, paredes forradas com tecidos e tetos pintados.
No final da visita, sugerimos que entre no Museu, descubra a coleção que inclui o espólio que foi recolhido em várias campanhas arqueológicas, e observe a representação de Lisboa e do Paço Real da Alcáçova, na reprodução da Panorâmica de Lisboa, datada do século XVI, exposta na Sala Ogival, uma das salas que fazia parte da residência régia.
Bom já falámos de vários temas, vamos finalmente ver o que vos trouxe cá, o Castelo. Falaremos agora sobre decapitações, setas cravadas, mortes em geral, e conquistemos o castelo.
Finalmente temos o objetivo à nossa frente. Vamos vestir a pele de um soldado e tentar conquistar o Castelo de São Jorge.
Mas esperem, antes disso, importa conhecer alguns dados sobre este castelo! Afinal quando foi construído? Bem, é difícil de responder. Ao que tudo indica, terá sido levantada uma primeira fortificação no século XI, durante o período de ocupação muçulmana. No entanto, o castelo que vemos hoje é o resultado de várias intervenções feitas ao longo do tempo. A configuração atual está próxima de um castelo gótico, resultando provavelmente das obras efetuadas pelos reis D. Afonso III e D. Dinis, nos séculos XIII e XIV. O nosso castelo apresenta características das fortificações deste tempo, como o formato em quadrado, a muralha ladeada por várias torres (neste caso, 11 torres), os caminhos de ronda largos, as duas praças de armas no interior do castelo, ou a barbacã com um fosso. Voltaremos a todos estes elementos durante a nossa visita.
Agora sim temos tudo o que é preciso! Vamos conquistar o castelo!
A primeira coisa que vos peço é que ignorem a ponte de pedra e aquele buraco na muralha. Muitos outros castelos tinham entradas colossais. Podemos, nalgumas dessas entradas, encontrar colunas de mármore, pinturas nas paredes, estátuas ou nichos.
O Castelo de São Jorge funciona de maneira diferente. Não vamos ver as entradas magníficas dos castelos do Vale do Loire, ou os salões gigantescos dos castelos alemães. O castelo que vamos visitar era apenas uma estrutura defensiva, nunca tendo sido residência de alguém. No entanto, pode ter existido um espaço de trabalho do governador, tal como a torre à sua frente funcionou, durante a Idade Média, como Arquivo Real, a chamada Torre do Tombo. O castelo de São Jorge nunca teve uma função palaciana, sendo que apenas era ocupado em caso de perigo iminente. Por isso, a preocupação com uma entrada vistosa e fácil de identificar aqui não existe. Pelo contrário, no Castelo de São Jorge, a entrada está escondida e é discreta.
Reparem que a nossa posição atual não é a melhor. Defrontamos 3 torres, a muralha principal, a muralha baixa, também chamada de barbacã e, ao longo desta, podemos ver uma série de seteiras. Há quatro níveis através dos quais, arqueiros e besteiros poderiam fazer mira aos nossos companheiros e a nós próprios.
Peço-vos que olhem à vossa esquerda e à vossa direita e que, sem pensar longamente, escolham um caminho.
O caminho da esquerda, para quem está de frente para o castelo, apresenta uma grande vantagem posicional a quem ataca. Podem ver que o caminho sobe ligeiramente. Do ponto de vista estratégico, uma posição mais elevada confere sempre vantagem a quem lá se encontra. Se escolhermos o caminho da direita podemos ver que a descida é acentuada e que nos vamos posicionar cada vez mais baixos em relação a muros e torres.
Felizmente, qualquer livro de tática militar cobre a existência de uma escolha destas. Quando não há uma escolha óbvia entre dois caminhos, nunca devemos enviar todos os nossos números por um lado ou pelo outro. Por outras palavras, que poderão já ter ouvido, “dividir para reinar”. O objetivo principal de não haver uma entrada facilmente identificável é o de fazer com que quem ataca, tenha de dividir os seus números. Imaginem que temos connosco um exército de 10 000 soldados, um bom exército à época, aqui, 5000 iriam para a esquerda e os restantes 5000 para a direita.
O caminho da esquerda, apesar da vantagem de posição, levar-nos-ia até uma encosta, não havendo hipótese de encontrar a entrada do castelo por essa via.
Quais as nossas hipóteses?
Podemos tentar escalar os muros; passar por baixo com a abertura de túneis; podemos tentar destruir a muralha ou, talvez o mais apelativo para nós hoje, procurar uma entrada. Começando pelas cordas e escadas. Nos filmes resulta incrivelmente bem. Os ganchos fixam sempre à primeira e os atacantes sobem as escadas, como se nada fosse, ignorando quem defende ou o peso das armaduras e armas que carregam.
Esta abordagem nem sempre resulta. Por um lado, uma corda nunca é fácil de trepar, ainda para mais com o peso extra que carregamos, por outro, quem defende pode facilmente repelir o ataque. Seja com flechas e virotes de besta, com pedras atiradas, ou simplesmente cortando cordas ou queimando escadas. A nossa melhor hipótese, caso tentássemos escalar os muros, seria apanhar os soldados desprevenidos. Como sabemos, as nossas chances de apanhar os defensores de surpresa eram escassas.
Tentar abrir túneis era outra hipótese, mas a sua abertura levava muito tempo, havia sempre o risco de alguém fazer o mesmo, mas de dentro para fora, ou do túnel ruir. Para piorar, a muralha baixa apresenta uma rampa na sua base, chamada de alambor, que torna a fundação da barbacã ainda mais larga e resistente.
Para piorar toda a situação, à frente da muralha existe um fosso. O que estamos habituados a ver são castelos com fossos cheios de água. No imaginário das pessoas há crocodilos a nadar no fosso preparados para comer quem quer que se aproxime da água. O Castelo de São Jorge dispõe de um fosso, mas o fim para o qual ele foi escavado é capaz de surpreender muita gente.
Sabendo que o nosso caminho até à entrada é seguindo pela direita, aproveitem estes poucos minutos para pensar no que poderia estar no fosso à nossa espera.
Visualizem bem a torre à vossa esquerda, ela será o nosso objetivo para hoje. Ao que tudo indica poderá ter sido esta a torre de menagem do Castelo de São Jorge. Esta torre poderia ser o derradeiro reduto de defesa, e onde se encontraria o estandarte, a bandeira, ou outro símbolo da autoridade. De forma a capturar oficialmente a fortaleza, e em última análise toda a cidade, teremos de chegar ao topo, tirar a bandeira que lá está e finalmente hastear a nossa.
A entrada do castelo encontrar-se-ia à nossa frente. Na Idade Média existiria uma ponte levadiça que, em tempos de guerra poderia ser içada, não permitindo a passagem.
Voltando ao fosso, têm alguma ideia de como seria?
Fossos com água são mais frequentes em zonas com muitos períodos de chuva e/ou zonas mais baixas com cursos de água perto. Aqui, não reunimos nenhuma destas condições. Propomos um exercício de imaginação, à nossa frente, em vez de um fosso com água, estaria o local onde todos os dejetos dos defensores do castelo eram depositados. O cheiro, o nojo e, mais importante que tudo isto, o risco de disseminação de doenças era elevado.
Já tentámos passar por cima e por baixo da muralha, resta-nos tentar destruir uma parte ou forçar a abertura dos portões. A arma mais utilizada na época medieval para abrir buracos em muros ou portas era o aríete. Atualmente, a polícia utiliza esta mesma arma. À época, o aríete era um tronco de madeira, afiado numa das pontas ou com uma cabeça de um animal, por norma um carneiro (áries, em latim, daí o seu nome), feita em bronze ou ferro, que os soldados balançavam para a frente e para trás de forma a destruir por repetição o ponto de impacto.
Infelizmente para nós, este castelo foi concebido para impedir a utilização eficaz do aríete.
A existência de um fosso tornava impossível a aproximação à porta.
Poderíamos tentar utilizar o aríete para bater no mesmo nível da barbacã, mas, a existência do fosso, uma vez mais, impede a nossa aproximação. A utilização de uma torre de madeira móvel, a chamada torre de assalto, seria praticamente impossível de a aproximar o suficiente da muralha de forma a permitir a passagem de soldados.
Os fossos não eram escavados para afogar soldados, mas podiam. A sua principal função era a de dificultar ao máximo aos atacantes a aproximação de armas de cerco.
Outras armas de cerco que se poderiam usar eram as catapultas e os trabucos. Nos filmes, estas armas, acertam sempre no alvo e destroem-no como se fosse feito de cartão.
Na realidade, catapultas e trabucos apresentavam grandes dificuldades à sua eficácia.
Ao utilizarmos uma catapulta, temos de ter em consideração a distância entre a nossa posição e o alvo. O tamanho do projétil, o seu peso, a sua forma, a direção e velocidade do vento, a humidade do ar, o material de que são feitas as cordas e a tensão que lhes é dada, fazem com que se tornasse difícil fazer pontaria com este tipo de armas.
No entanto, a utilização de pedras contra este muro era um enorme desperdício de recursos. Em alguns casos as catapultas e trabucos foram utilizadas para disparar outras coisas. Corpos, inteiros ou despedaçados, saudáveis ou em decomposição eram munições reais. O objetivo não era o de destruir muros ou matar alguém, catapultas e trabucos eram também armas de guerra psicológica e biológica.
Se nos pusermos no papel de alguém que defende o castelo e nos víssemos nesta posição a nossa moral, invariavelmente, iria ser abalada. O objetivo desta guerra psicológica é o de fazer com que alguns dos defensores se rendam. É muito complicado para qualquer pessoa, bombardeada durante horas, dias, ou às vezes até semanas não considerar, nem que seja momentaneamente, uma rendição.
Finalmente no interior do castelo podemos ver que esta entrada não é um espaço convidativo nem bonito. Apesar da ausência de decoração, a sua conceção é brilhante do ponto de vista defensivo. Assim que transpomos a porta deparamo-nos com a muralha principal do castelo à nossa frente. Afinal, ainda não entrámos. Temos de continuar a procurar a entrada do castelo.
Estamos num espaço muito estreito e esta falta de espaço nota-se ainda mais se estivermos a falar de grandes grupos de pessoas. A entrada está concebida para forçar quem ataca a uma escolha, de preferência errada. À primeira vista teríamos novamente uma escolha de 50/50 entre o caminho da esquerda e o da direita. Podemos pensar que, estando entre os primeiros a entrar, temos a vantagem de algum tempo para pensar qual o rumo, mas não. Não só os atiradores inimigos, estacionados no topo das torres e da muralha principal tinham possibilidade de tiro direto contra nós, como os nossos próprios companheiros representariam um perigo real. Se o soldado à frente ficar muito tempo parado tentando perceber qual o melhor caminho a seguir, nós vamos tentar apressar a decisão.
Voltando à nossa escolha, por favor, olhem à vossa esquerda e à vossa direita. Algum caminho que vos pareça mais fácil de seguir e por onde possamos avançar? Mais uma vez não é uma decisão óbvia.
Reparem que o caminho da esquerda é mais curto e vai-se tornando cada vez mais estreito à medida que avança. Se por um lado temos de andar menos até chegarmos ao fim do mesmo, por outro, o número de soldados que nos pode acompanhar é reduzido. O lado direito é o oposto, não só podemos ver que é mais longo, mas também que alarga à medida que avançamos. Podemos levar mais soldados connosco e, com mais espaço, há mais hipótese de a entrada estar algures no muro deste lado. Sem mais nenhuma informação, estaríamos tentados a seguir o caminho da direita, mas, há mais fatores a ter em consideração.
A maior parte da população mundial é destra, utiliza maioritariamente a mão direita. A possibilidade de haver algum esquerdino num exército cristão em período medieval era muito reduzida. Tendo isto em consideração, muitas armadilhas e posições de vantagem foram concebidas de forma a retirar toda e qualquer vantagem a quem empunhasse a espada com a mão direita.
Partindo deste princípio vamos assumir que todos os 5000 soldados que connosco passaram a ponte são destros e utilizam a arma na mão direita e a proteção no braço/mão esquerdo. Se seguirmos pelo caminho da direita podemos levantar o escudo para proteger a cabeça de quase tudo o que contra nós fosse atirado. Se, pelo contrário, escolhermos o caminho da esquerda, o nosso flanco direito está completamente exposto, dado que a nossa arma pouca proteção pode oferecer.
Tudo isto considerado, o lado direito apresenta uma clara vantagem, mas, se tivermos em consideração o princípio seguido anteriormente, devemos dividir o grupo. – Dentro da divisão, eu escolheria ir no grupo da esquerda.
Aqueles que escolheram seguir o caminho mais lógico e foram pela direita iriam muito em breve descobrir que era um beco sem saída e podem dar por terminada a visita.
Temos no nosso imaginário que todos os defensores poderiam despejar largos caldeirões de água ou azeite a ferver nas cabeças de quem, em baixo, desespera por não poder avançar ou recuar. Água o castelo não dispõe em quantidade abundante e azeite era demasiado caro para desperdiçar desta maneira. Nalguns casos, era utilizado algo diferente. – Algo quase infinito no planeta terra, que podem obter quase sempre gratuitamente, que vos pode dar boas sensações e memórias, e que todos já tocaram ou viram. Areia. – Areia a ferver aquecida em caldeirões ao lume.
Porque é que a areia pode ser tão devastadora neste caso? Imaginem que, olham para cima, veem onde estão posicionados os atiradores inimigos? Um grão de areia incandescente pode facilmente causar graves danos no olho. Se estiverem a utilizar uma cota de anéis metálicos, a areia vai penetrar nos espaços vazios dos anéis. Se estiverem a utilizar uma armadura fechada, o calor da areia vai ser transferido para o metal que vos protege. O mesmo se passa com elmos de metal. Todo o metal que nos protege dos projéteis inimigos vai fazer com que fiquemos queimados dentro das nossas proteções. – Sabem quantos filmes representam areia a ser utilizada desta forma? Zero, agora sabem defender a vossa casa gratuitamente.
Chegados a este ponto, hoje, têm um mapa da fortaleza à vossa frente, portanto aproveitem para o memorizar ou fotografar caso precisem dele mais tarde. Como veem, teria sido muito mais simples termos seguido logo pela ponte de pedra (e poupado vários minutos deste áudio), mas ela não existia. E, ao contrário do que parecia, não estamos propriamente no interior da fortaleza.
À nossa frente encontra-se uma enorme porta que, num confronto, estaria fechada. Questionam-se agora: Como destruímos tal barreira? Com um aríete? É que o ariete ficou no exterior do castelo. Recuperá-lo implicaria recuar, tentar passar o ariete entre as muralhas, na passagem em cotovelo e trazê-lo até aqui. Tudo isto, enquanto lá de cima chovem projeteis sobre as nossas cabeças.
Mesmo que tenhamos alcançado tal façanha, lembrem-se que o castelo é construído de forma a tornar cada progressão numa tarefa quase impossível. Olhem com atenção para a torre à vossa esquerda. A sua construção em ângulo impede o uso do ariete numa posição frontal. Ou seja, a única forma possível de o usar seria na diagonal, fazendo com que o impacto fosse muito menor. Recorram, então, ao que tiverem à mão, machados, pedras, espadas, o que for preciso até conseguirem derrubar a porta, debaixo duma chuva de projeteis.
Imaginemos que conseguimos finalmente destruir esta porta. Se pensavam que agora estariam a salvo, a primeira visão que têm são duas seteiras, sendo recebidos por uma chuva de setas e virotes de besta. Levantem agora os vossos escudos, protejam-se e vamos descobrir o que nos espera em seguida.
Bem-vindos à zona que qualquer atacante desejaria evitar a todo o custo. Se olharem à vossa volta vão ver um espaço afundado no meio de altas muralhas. Podem imaginar que besteiros e arqueiros fariam a vida miserável a quem tivesse de se defender nesta posição. Aqui em baixo, rodeados em 360º, não temos sítio onde possamos proteger-nos eficazmente. A nossa única opção enquanto atacantes é deitar abaixo o mais rapidamente possível a porta e avançar no espaço.
Conseguimos ver que existiu aqui uma porta pelos buracos nas paredes laterais, que serviriam para que grossas traves de madeira a trancassem. A oeste, vê-se outra abertura na muralha, que foi feita durante o tempo de funcionamento de quarteis no Castelo de São Jorge. Portanto, não existia na época medieval. Vamos esquecer que ali está!
Se à primeira vista, a nossa posição não é agradável, vai piorar bastante, porque mais uma vez, em frente à porta, vemos que a muralha recua. Qual o objetivo desta muralha?
O facto desta muralha estar saliente no sentido da porta faz com que armas de cerco, principalmente o ariete, tenham, uma vez mais, pouco ou nenhum espaço de manobra.
Apesar deste chão ter sido colocado em períodos muito mais recentes da história do castelo e, não ser por isso, o original, podemos ver que é inclinado. Alguns castelos preocupavam-se não só com a defesa física dos espaços, como pudemos ver com a torre, mas também com a questão da moral dos soldados.
Se imaginarem que ainda temos connosco os 2500 soldados que escolheram os caminhos de forma correta, este espaço não tem capacidade para todos eles ao mesmo tempo. Mais uma vez o grupo partir-se-ia, embora desta vez não houvesse qualquer escolha envolvida. Podemos imaginar que aqui estão 50/60 soldados e, os restantes, estarão nos espaços anteriores. Até conseguirem dobrar a curva da torre, estes soldados não conseguem ver aquilo que irão enfrentar muito em breve. O ângulo de 90º da torre impede que haja comunicação visual entre os grupos.
Enquanto os soldados que se encontram a tentar derrubar a porta são massacrados, o restante exército não o consegue ver. O que acham que acontece aos corpos dos soldados mortos ou demasiado feridos para continuar o combate? Provavelmente ficariam neste espaço até ao final do dia de combate, o chão não é inclinado o suficiente para fazer com que um corpo role sobre si mesmo. O problema está no sangue que estes corpos perderiam e que, devido à suave inclinação do chão, fluiria constantemente na direção dos nossos soldados à espera atrás da torre.
Estes soldados sentiriam o cheiro a sangue escorrer na sua direção e ouviriam os gritos dos seus companheiros a lutar e a serem massacrados, tudo isto sem saberem qual a origem desta situação.
Podemos pensar que tudo isto é violento e que, nos dias que correm, nada disto se aplica. Quando vemos um filme de terror, em muitos casos, a pior parte do filme não é quando o monstro ou o espírito se revela. É sabermos que há algo no escuro que não conseguimos identificar ou ver. A antecipação do momento é capaz de fazer com que a nossa imaginação nos pregue partidas. Este espaço consegue exatamente esse mesmo efeito conjugando uma armadilha física com uma armadilha psicológica.
Passamos finalmente a porta e podemos relaxar um pouco. Temos mais espaço para nos reunirmos com os nossos companheiros e uma nova oportunidade para planear o próximo passo. Esta sensação de segurança é falsa. Podem ver que, não só continuamos cercados a toda a volta, mas, se esquecermos a escadaria à direita, as árvores e aquela pequena estrutura de arrumos junto aos muros (porque nada disto existia), não temos qualquer acesso ao topo das muralhas.
Já vimos que cordas e escadas não são uma solução garante de sucesso e, desta vez, não temos uma escolha de 50/50, de facto, não temos escolha nenhuma. Este espaço, mais uma vez afundado no meio de altos muros, parece não ter saída.
A meio deste muro à nossa esquerda, podem ver que há uma torre. Ao contrário de outras torres, cujas funções são conhecidas, esta é um quebra-cabeças. Em termos de posição defensiva ela pouco acrescenta à primeira vista, no entanto, é graças a ela que a porta de acesso à área mais restrita do castelo, se encontra escondida. Pela primeira vez, a única forma de prosseguir, não passa por uma escolha de esquerda ou direita, mas sim, seguir apenas em frente.
Por trás da torre podemos ver o local onde em tempos existiu uma porta e, por trás do arco, vemos uma vez mais buracos na parede para que novas traves de madeira pudessem servir de tranca. – Tenho mais uma armadilha para vos mostrar, e esta pode ser perigosa, mesmo nos dias de hoje.
Esta é a Praça mais protegida do Castelo de São Jorge. Tudo o que vimos e vivemos até agora foi construído de forma a proteger este espaço onde nos encontramos. Nesta área do castelo, os defensores poderiam contar com alguma água armazenada numa cisterna. – Desde que chova. Não se esqueçam que a altura mais propícia a um ataque era durante a primavera e o verão.
Certamente existiu em tempos um silo, para armazenamento de cereal o que poderia ser essencial, tal como a cisterna, se os combates se prolongassem no tempo.
Podemos ver ainda aqui a existência de uma pequena porta no muro, a porta da traição. Esta porta poderia servir para o envio de mensageiros, ataques surpresa para o exterior, a fuga em caso de necessidade ou ainda, tal como o nome diz, traição, para a entrada dos amantes.
Mas, voltando à perspetiva dos atacantes, podem ver que continuamos com muralhas a toda a volta. É neste mesmo espaço que podemos observar a escadaria de acesso ao topo da muralha. Esta escadaria representa um obstáculo maior do que aparenta. Em primeiro lugar podemos esquecer a existência do corrimão, o que faria a escada bem menos segura nos dias que correm para não dizer ilegal. Se se lembrarem que a maioria de nós somos destros e, como tal, temos a arma na mão direita, o facto de termos o muro à nossa direita faz com que não tenhamos espaço para lutar, conferindo, uma grande vantagem a quem defende. A outra é que se encontram num ponto mais elevado em relação a nós.
Se estivéssemos a atacar, provavelmente esta seria a primeira vez que víamos a escada, pelo que não a conheceríamos. Uma coisa são as escadas de hoje, com o tamanho dos degraus regulamentado, mas quando estas foram feitas não havia fiscal de obra.
Se olharem com muita atenção para cada degrau individualmente, vão ver que todos eles são diferentes do anterior e do próximo. Se esta assimetria foi propositada não sabemos, mas que dificulta a subida para quem vem carregado com equipamento de combate, dificulta! Uma simples escadaria pode rapidamente tornar-se um pesadelo.
No cimo das escadas sugerimos que vire à direita e percorra o caminho de ronda até à Torre de Menagem (hoje, Torre do Observatório). Imaginem-se uma vez mais, a percorrer todo este caminho, enquanto matam oponentes e apreciam a vista arrebatadora sobre o espaço em vosso redor. Enquanto o fazem, um pensamento passa seguramente pela vossa mente. “Está quase! Vamos finalmente conquistar este castelo!”
Assim que chegam à torre deparam-se com uma visão. Um estreitíssimo caminho até ao seu topo. Apenas um soldado de cada vez o consegue atravessar, ainda mais com todo o equipamento militar. Convém relembrar, que conforme matam um oponente o seu cadáver não desaparece simplesmente como nos jogos de computador. Têm de o trepar, caminhar sobre o seu corpo e até escorregar no seu sangue e nas suas entranhas.
Mas, pior que tudo isto, estão neste momento a ouvir gritos de guerra dos nossos últimos oponentes. Serão neste momento apenas alguns; 15, 20, 25 homens estão à nossa espera. Mas se estes homens ainda estão vivos, e estão nesta torre a guardar a bandeira, que tipo de guerreiros serão? Garanto-vos, são os melhores! São “a elite”! Homens cuja função e tarefa praticamente desde o momento em que começaram a andar, foi apenas uma; aprender a lutar e a matar. São “máquinas de guerra” perfeitas. Mas bom, como esta explicação terá eventualmente de acabar, portanto imaginem uma vez mais que os matamos a todos e subimos agora ao topo da torre.
Chegados ao topo, olham em redor à procura da bandeira e não a encontram! Não, não foram enganados. Hoje está noutro sítio, mas, na idade média, Lisboa era apenas a sul da colina, logo, a bandeira poderia estar aqui, porque nesta torre seria perfeitamente visível. Atualmente a capital cresceu tanto que as bandeiras de Portugal e de Lisboa foram colocadas no lado oeste, cimeiras à grande parte ribeirinha e à zona histórica da cidade.
Voltando ao vosso objetivo. Veem a bandeira imaginária, e substituem-na pela vossa, hasteando-a o mais alto possível. Para quê? Para que todos os homens que ainda lutam pela cidade se apercebam que o Castelo foi conquistado! Como tal dou-vos os parabéns, conseguiram conquistar o Castelo de São Jorge! E porque vos estou a felicitar? Porque fizeram algo que nunca ninguém fez!
Em boa verdade, o Castelo foi conquistado, mas não desta forma.
Em 1147, Lisboa estava sob o domínio muçulmano. À época, chamada de Al-Ushbuna, era uma cidade que se estendia sobre esta colina até ao rio Tejo, e rodeada por muralhas.
Nesse ano, Dom Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, com a ajuda dos cruzados, cercou a cidade.
Contingentes anglo-normandos ocuparam a zona ocidental da cidade, atualmente a zona do Chiado; portugueses e francos bloquearam a zona norte, na colina da Graça; o acampamento germano e flamengo, estacionou na zona oriental da cidade, local onde viria a ser construído o mosteiro de São Vicente de Fora e, por último, um contingente italiano, menos expressivo, mantinha o rio vigiado. Após quase 4 meses de cerco, os muçulmanos, por falta de mantimentos e sem esperança de ajuda externa, renderam-se às forças Cristãs e a Dom Afonso Henriques, que entrou na cidade a 25 de outubro de 1147, e veio ao Castelo hastear a sua bandeira.
Por último, não podemos pensar que um cerco é uma garantia de sucesso. Em 1384, quando Lisboa esteve sitiada durante vários meses pelas tropas castelhanas, os defensores da cidade resistiram, mas, verdade seja dita, com uma pequena ajuda. Neste ano, houve um surto de peste e, também por isso, o cerco foi levantado.
Chegámos então ao fim da nossa aventura. Não esperamos que, daqui a uns meses ou anos, se recordem em que ano se travou a batalha de Guadalete (711), mas, quando visitarem outras fortificações, que se lembrem das dificuldades que aqui passaram e nunca se esqueçam –
Um castelo é construído para não ser conquistado! Até sempre, soldado!